sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Procuram-se professores

Assunto volta e meia retorna ao foco, e seria insensatez escapar dele: os dilemas e dificuldades impostos à educação brasileira. Já há algum tempo havia a constatação pelas secretarias municipais e estaduais, e mesmo pelas escolas particulares, da carência de professores para determinadas disciplinas, como a física, de 5ª a 8ª série e do ensino médio.
Carência não nos quadros, pois não adianta fazer concurso ou abrir vagas, porque eles não aparecem. Carência no mercado, pura e simplesmente.
Agora o problema chega à frieza dos números. O recém-divulgado Censo de Educação Superior, feito pelo Ministério da Educação (MEC), mostra que pelo segundo ano consecutivo caiu o número de universitários formados nas disciplinas específicas para o magistério. Em 2007, formaram-se 70.507 professores, 4,5% a menos do que em 2006 e 9,3% a menos do que em 2005. As maiores quedas ocorreram em ciências sociais, letras, geografia, química e filosofia. Para suprir essa carência, criou-se uma distorção paralela à de idade-série do aluno: a de formação/prática do professor.
De acordo com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Nível Superior (Capes), também do MEC, há 300 mil professores com "desvio de conteúdo", dando aulas em disciplinas nas quais não se formaram.
Voltando ao exemplo da física, a carência é suprida por matemáticos. Ou professores de história que dão aula de geografia. O diagnóstico para o problema é invariável: baixos salários e a consequente pouca valorização da profissão, que joga a auto-estima do profissional no chão. O quadro se agrava com a desaceleração da abertura de instituições de ensino, principalmente particulares, depois de 10 anos de expansão.
Apesar de essas instituições serem voltadas para cursos de formação de profissionais de rápida absorção pelo mercado de trabalho, é mais um dado preocupante. O ritmo de abertura de cursos presenciais nas instituições já existentes também caiu, em favor dos cursos a distância, em geral dirigidos para estudantes já fora da idade regulamentar e longe dos grandes centros, não necessariamente para a formação de professores.
O MEC anuncia planos de longo prazo, como a expansão das universidades federais, a criação de 28 institutos tecnológicos, acordos com 19 estados para capacitação de 360 mil professores públicos e a bolsa de iniciação à docência. Mas e os salários? Estão abaixando mais ainda. No Rio, por exemplo, o prefeito Eduardo Paes acaba de alterar a política salarial de 30% dos servidores. Não teve alternativa, sob o risco de enfrentar, ainda no primeiro ano de governo, restrições da Lei de Responsabilidade Fiscal para contratar funcionários e mesmo à possibilidade de ser obrigado a demitir.
Paes cancelou um decreto de Cesar Maia que vinculava o percentual de reajuste ao salário mínimo de servidores com cargos de nível médio e fundamental. Quase todos os funcionários passarão a receber aumentos inferiores aos que vinham obtendo até então. O contexto é de crise econômica internacional, com seqüelas inevitáveis sobre o país. Além da falta de dinheiro, essa crise nos remete à baixa escolaridade do trabalhador brasileiro, queixa recorrente do próprio empresariado. E assim o círculo vicioso vai girando e se tornando cada vez mais viciado.
Editorial EDUCAÇÃO – Jornal do Brasil desta quarta-feira (4) de fevereiro.

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